Page 5 - VERSÃO FINAL CAD DE RESUMO
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A                                                                           APRESENTAÇÃO

                          prevalência de doenças tropicais e negligenciadas é diretamente relacionada com as condições de
                          saúde experimentadas por uma população. Por isso, discutir Medicina Tropical é discutir saneamento
                          básico, acesso à saúde, educação em saúde, hábitos populares e, sobretudo, políticas públicas.
                          Do ponto de vista histórico, ainda no Brasil Império, mas sobretudo no início da República, o Rio de
                Janeiro, assim como outras grandes cidades, experimentou o aumento da população residente na cidade, principal-
                mente pela chegada de imigrantes e da população negra recém liberta pela lei Áurea. A baixa oferta de empregos e
                geração de renda, a alta concentração demográfica e a total ausência de políticas públicas para moradia, educação,
                saúde e emprego desta população contribuíram para o surgimento de formas de habitação precárias. Os cortiços
                costumavam abrigar até dezenas de famílias, apinhadas em quartos pequenos e insalubres, e, em muitas ocasiões,
                com apenas um banheiro coletivo. Os ambientes eram apertados, mal iluminados, não havia abastecimento de
                água ou esgotamento, nem recolhimento do lixo, conforme descreve Aloísio de Azevedo, em “O Cortiço”. Eram
                recorrentes as epidemias de malária, tifo, cólera e febre amarela. À esta época, o Rio de Janeiro era conhecido
                como “túmulo de imigrantes” e diversos países tinham restrições sanitárias em relação a atracar no porto da ci-
                dade.
                       No início dos anos 1900, o então presidente Rodrigues Alves nomeia Pereira Passos prefeito da Capital
                Federal, com o objetivo de remodelar a paisagem urbana, sobretudo do Centro, trazendo um aspecto cosmopolita
                à cidade. Essa missão estendeu-se à mudanças no panorama sanitário, sendo o médico Oswaldo Cruz, então di-
                retor do Instituto Soroterápico Federal (atual Instituto Oswaldo Cruz), nomeado Diretor-geral da Saúde Pública.
                Durante este período, ambos, Passos e Cruz, instituíram uma série de medidas para transformar a cidade. Passos,
                inspirado na experiência francesa do barão de Haussman, reformou amplamente o Centro da cidade, removeu
                cortiços e casarões, abriu amplas avenidas, destacando-se a Av. Rio Branco, e construiu prédios baseados na ar-
                quitetura eclética adotada nos boulevards parisienses, destacando-se a construção do Teatro Municipal do Rio de
                Janeiro. Oswaldo Cruz, por sua vez, coordenou as campanhas contra febre amarela e varíola, adotando extenso
                combate ao mosquito vetor e a política de vacinação compulsória, respectivamente. Essas ações foram acompa-
                nhadas pelo emprego de forças autoritárias e enfrentaram importante resistência popular, em um movimento
                batizado como Revolta da Vacina.
                       Iniciamos a apresentação do I Simpósio de Medicina Tropical e Doenças Negligenciadas da UFRJ abor-
                dando este importante trecho histórico, pois entendemos que este é um momento síntese do nosso país enquanto
                nação. De um lado, observamos as equipes de saúde pública buscando autoritariamente resolver um grave pro-
                blema sanitário. Do outro, a população, completamente ignorante e desinformada, combatendo esta política. Este
                momentum único - expresso na Revolta da Vacina - traduz a dificuldade crônica que nós, cientistas e sanitaristas,
                temos de dialogar com a população e promover a educação científica e em saúde. A nossa sociedade foi forjada na
                contradição social, nos movimentos de expansão da elite e de resistência periférica, da tomada vertical de decisões
                autoritárias e, do ponto de vista da Saúde, não podia ser diferente.
                       Não obstante, retornando à História, a extensa política de remoção autoritária de populações empobreci-
                das do Centro, empreendida por Pereira Passos, com apoio de Rodrigues Alves e de Oswaldo Cruz, foi um grande
                acelerador da formação de um dos principais fenômenos geopolítico-epidemiológico brasileiro: as favelas. Con-
                forme retrata Di Cavalcanti, em “A Favela”, estas se caracterizam por um conjunto de moradias, em condições
                precárias, tipicamente nos morros da cidade, para onde foram deslocadas populações removidas de outros lugares,
                sobretudo zona sul e centro, bem como principais centros acolhedores de migrantes, sobretudo nordestinos. Ao
                longo do século XX, as favelas se expandiram rapidamente no Rio de Janeiro, sendo hoje uma das principais for-
                mas de moradias da população pobre na cidade. Sofrem com a falta de infraestrutura e de presença dos aparelhos
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